Orelhas à vista
Acontece o tempo todo. A criação se abastece de informações sobre determinado cliente por meio do que chamamos briefing. O contato traz um calhamaço deste material que é a matéria-prima para o começo de todo trabalho. Vez por outra, para “ajudar”, além do briefing, vem junto todo um roteiro para a criação. Mais raro, a idéia vem “toda pronta”enviada pelo cliente que se considera um homem de criação. A história de hoje é sobre uma dessas situações. Muitos anos atrás, uma saudosa rádio fm, a Geraes, iria estrear um programa voltado para comunicação e marketing.
A idéia era inovadora, considerando que vivíamos em uma época pré-internet. Um boletim em formato de newsletter, apresentado por um jornalista especializado nestes segmentos. Após nos transmitir estas mesmas informações que você lê agora, o contato da agência continua, em um tom aliviado, como se estivesse dando uma ótima notícia: “- Mas desta vez vocês não terão que criar nada, pessoal.”
Silêncio na sala, o “pessoal” já adivinhava o porquê, mas ninguém tinha coragem para perguntar. O estagiário, inocente deste mundo louco da propaganda, todo curioso, foi quem tirou o pino da granada.
“Ué, mas porque?”
O contato então abriu sua pasta, tirou de lá umas folhas grampeadas, a “idéia pronta”
“-Ele vai querer um outdoor com uma orelha gigante de um lado, e este texto do outro lado”. Não havia ainda bancos de imagem online como hoje. A foto seria produzida.
“-Olha, ele disse que quer aprovar a orelha, para ser do jeito que ele imagina a peça pronta.”Isso mesmo, casting de orelha. Agora imaginem a cena.
A modelo chega com um book embaixo do braço, me cumprimenta, e quando vai sacar o book, ouve: “-Não vamos precisar disso não. Chegue mais perto, vire de lado, e me mostra sua orelha.”
Até conseguir explicar, elas me olhavam imaginando que tipo novo de maníaco eu era, pedindo aquilo. Com sorte, não apanhei de nenhuma delas e até consegui uma, que depois de me fazer prometer que não contaria para ninguém, acompanharia sua orelha aos testes com o fotógrafo. Para explicar ao fotógrafo, outro trabalho.
“-Certo, fotografar uma orelha. Mas ela vai estar usando o qu�
Também era uma época pré-foto digital. O que exigia um fundo infinito imenso com toda aquela parafernália de iluminação.
Um imprevisto. No estúdio do fotógrafo, dia e hora da produção, a modelo me liga e diz que não dá para ir, foi selecionada para outro trabalho que ia começar em seguida. Sentia muito, mas não tinha como deixar a orelha comigo e buscar depois. Então era isso. Nenhuma “orelha à vista” para fotografar.
Quando ia contar a novidade ao fotógrafo, chega uma moça se desculpando pelo atraso.
Era a assistente dele. Alguém lá em cima gosta de mim.
“-Oi moça, tudo bem?. Posso te pedir um favor? Deixa eu ver sua orelha…”
Ela concordou em posar mas ainda havia um problema. O cliente queria aprovar a seleção e só havia uma, no máximo, duas orelhas. O fotógrafo, meio solidário, meio de saco cheio da situação, propôs: “- Vou fotografar as duas orelhas com ângulo e iluminação diferente, depois inverto os cromos. Seu cliente vai poder escolher à vontade.”
Era uma solução, e eu sabia que podia confiar na qualidade dos cromos, independente de serem todos do mesmo “modelo”. Todo satisfeito, o contato me procura: “- Estive com o cliente agora, ele aprovou esta aqui, pode tocar a produção.”
Por uma quinzena, os principais pontos da cidade foram invadidos por aquela orelha gigante. O irônico. A dona do “modelo” não pôde desfrutar da celebridade de sua própria orelha. Como provar que era dela? Mas houve uma compensação. Após o episódio, a moça terminou por se interessar e debandou para Propaganda. Hoje é uma diretora de arte.
Tenho até hoje a prova do outdoor e a série de “testes fotográficos. Na verdade estive olhando para eles o tempo todo da produção deste texto, para me lembrar de como idéias prontas podem ser desastres anunciados.

Postado em fevereiro 20th, 2007 por iZIP - MÃdia Colorida
Categoria: Colunistas |






Interessante isso de ‘idéia pronta’… Aconteceu muito comigo, tanto que quando ia visitar um cliente, eu não seixa ele dar a idéia pronta, perguntava logo: vc tem alguma ‘idéia’ pronta?
Só isso era o suficiente pra desarmar qualquer cliente… E funcionava que era uma beleza :D
Hahaha belo artigo, a ideia pronta as vezes pode ser um desastre pois veja bem. o cliente vem com uma “idéia pronta”, você faz o que ele pede já que cujo esta pagando. Pórem o projeto final fica horrivel (no seu lado criativo) e para o lado dele bom. as vezes se voce mostrar como um portfólio (mais dele do que seu) acaba te prejudicando futuramente!
Olá meu amigo!!!! To aqui de novo conferindo uma de suas ‘pérolas’… Caramba, sabia que tinha muitas histórias pra contar… mas não imaginava que seriam tantas…. cada coisa que aparece por aqui!!!!!!!!
Já pensou na possibilidade de escrever um livro??? rsrsr… com certeza assunto não faltaria!!!!
Orelha trabalhosa essa sua heim… kkkkk…. Adorei!!
Bjo e até a proxima!!!
Olá Pessoal,
Pensei em escrever sobre a “Idéia Pronta” porque é uma das síndromes mais recorrentes nesta nossa vida profissional.
Não importa o tamanho do cliente, todos têm seus pontos de vista sobre como deve ser uma peça publicitária. Existem honrosas exceções, claro. Muitos empresários que são publicitários natos e não sabem. Talvez por isso é que dê certo quando fazem seu próprio material. Mas aqui neste espaço não podia deixar de contar mais esta história, lembrando que a outra parte, a das “idéias prontas”, dá mais trabalho que começar do zero.
Obrigado Assunção, por compartilhar do seu estratagema com a gente.
Obrigado Matheus, e para falar a verdade tem muita coisa que fiz que não incluo em meu portifólio por esta mesma razão. Fiz seguindo a orientação do cliente e o resultado agradou só a ele.
Obrigado Débora, já estou pensando nisso sim, acho que um livro
daria para comportar as histórias que vivi e que conheço. Quem sabe acaba mesmo acontecendo e aí coloco uma dedicatória especial para você.
Abraços a todos vocês e continuem a enviar comentários.
Ricardo