Idéias na Gaveta

O destino de muitas boas idéias. Mas o quê elas estão fazendo lá?

Faz parte do trabalho. Muitas idéias são abandonadas pelas mais diversas razões.

Mas simplesmente não consigo me desfazer delas. Foram resultado de muito trabalho até chegar a mais adequada ao cliente. Isso significa que tenho alguns cds de “Engavetadas”. Uma das causas mais comuns do “engavetamento de boas idéias” tem diretamente a ver com o pessoal envolvido. Um Cliente precisa de uma peça, chama seu pessoal de marketing, que chama sua agência, que chama um outro profissional para realizar o trabalho. Todos querem dar sua opinião, participar no processo. Alguns porque é mesmo sua atribuição, outros porque querem impressionar, e o mais perigoso destes grupos, um terceiro, é aquele que precisa deixar sua marca a qualquer custo, mesmo com o risco de comprometer a qualidade do trabalho.

Alguns anos atrás, fui chamado por uma agência para reformular uma logomarca de uma empresa com 15 anos de mercado. Uma das razões era exatamente este tempo de vida.

A outra, estavam construindo uma nova sede algumas vezes maior que a atual e precisavam se adequar a esta mudança. Visitei a sede atual e a que estava em obras. Um trabalho de redesign precisa respeitar os elementos gráficos que se mostram ainda ativos na logomarca. Seguindo esta orientação, fiz todo um projeto gráfico que preservava um pouco da logomarca e inseria novos elementos, integrando e mantendo a lembrança dos clientes com a logo antiga. A agência me retornou dizendo que não haviam gostado na empresa e preferiam fazer algo totalmente novo.

Passaram um novo briefing, fiz as novas versões. Eles gostaram, mas o cliente não. Gravei tudo em um cd e guardei com outros trabalhos que por alguma razão também tinham sido “engavetados”. Um ano depois me ligam da própria empresa. O pessoal do marketing queria retomar o projeto de atualização da logomarca, mas não atendidos pela agência, dispensada na época do projeto. Queriam ser atendidos diretamente por mim. Marcaram uma reunião para o dia seguinte, e me passariam mais informações. Diante disso, não tive dúvida. Peguei um dos cds das “engavetadas”, fui até a pasta da empresa, abri e imprimi o mesmo projeto de um ano atrás. Quando apresentei com um ano de atraso a nova versão da logomarca, todos gostaram e disseram que era o que haviam pensado desde o começo, mas que a agência não mostrou nada parecido. Bom, aí eu pude confirmar que a agência pertencia ao “terceiro grupo”. Não mostraram antes uma idéia adequada porque queriam deixar a sua marca, e como resultado, perderam o atendimento. Aprovada a logo, refiz toda a papelaria da empresa, que entre envelopes, pastas e papel-carta de tamanhos diversos, somavam umas 15 peças.

Mas esta história tem uma segunda parte, ainda conseqüência da atitude da agência.

Alguns meses depois, a nova sede ficou pronta e iriam promover um coquetel de lançamento. Fui convidado, e lá estava eu entre dezenas de funcionários, fornecedores e clientes da empresa, quando vejo o gerente de marketing acompanhado do contato da agência, vindo em minha direção.

- Gostaria de te apresentar o responsável pela atualização da nossa marca.

- Muito prazer. Seu trabalho ficou muito bom, comentamos hoje ainda lá na agência.

- Obrigado. Mas a logo antiga ajudou muito, sabe? Apesar do tempo de vida, alguns elementos gráficos tinham força suficiente para se manter neste novo conceito, e os clientes da empresa ainda teriam uma identificação com a logo anterior.

- Nós todos gostamos muito. Pode ter certeza que temos muita coisa para fazer.

- Aproveitando o que o Sérgio disse, gostaria que ficasse com nosso cartão e fizesse uma visita para conhecer nossa agência.

- Com certeza, te ligo e a gente combina.

O contato não tinha culpa do acontecido. Estava só tentando fazer seu trabalho aquela noite.

Mais tarde, num momento mais oportuno, o contato veio me agradecer.

- Você salvou minha vida. Estou tentando retomar o atendimento deste cliente. Se ele soubesse o que realmente aconteceu, não falava mais comigo. Mas você já deve desconfiar da verdade. Quando seu trabalho chegou, todos gostaram, menos o Diretor de Criação, que como sabe também é dono da agência. Não mostrou para o cliente e te enviou um novo briefing como se fossem orientações recebidas numa reunião que nunca aconteceu. O cliente não sabia que era um trabalho terceirizado. A nova versão foi rejeitada. Por conta de outros desencontros, resolveram encerrar nosso atendimento.

Então lembrei de você.

Eu precisava retomar aquela conta, e sabia que iam gostar da sua idéia.

O diretor de marketing deles me ligou, pedindo como favor pessoal a lista de fornecedores que a gente trabalha. Inclui seu nome, e mandei entregar na empresa.

Liguei para saber se precisava de mais alguma coisa e falei que na lista estava um profissional (você) que eu indicava para serviços de criação. Ele ficou agradecido, e a partir daí mantive contato novamente. Quando aprovaram a versão, ele me enviou anexada em e-mail. Mostrei para o pessoal e eles ficaram doidos. O chefe mais ainda, que não entendia como tinham criado a mesmíssima coisa. Aí eu contei que tinha dado seu telefone para a empresa e argumentei que a melhor saída para retomar a conta seria deixando eles satisfeitos. Fiquei pensando que toda agência deveria ter um contato como aquele.

Moral da história:
Não jogue suas idéias fora, engavete e espere o que o tempo tem a dizer.
As idéias têm força própria e vão acabar achando um jeito de sair de lá.

(Nenhum Voto)
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3 Comentários para “Idéias na Gaveta”

  1. Frugoli,

    Otimo CASE. Rrsrsr.

    Uau!

  2. Ricardo,
    adorei o case, e o completaria dizendo que assim como nossas próprias idéias não devemos tabém nos esquecermos nunca do que ouvimos, no ônibus, na rua na faculdade e assim por diante. Como boas idéias, bons conselhos e dicas não devem nunca ser esquecidos.
    parabéns e obrigada pelas dicas.

  3. Olá Juliana,

    Depois de tantos anos batalhando(20 completados este ano), consegui acumular muitas histórias interessantes.
    Espero sinceramente que as minhas dicas te ajudem, como me ajudaram.

    Abração,
    Ricardo

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