Um causo Afro-Brasileiro

É impressionante o quanto a vida de atendimento pode ser imprevisível. E tem gente que acha que a profissão vai acabar! Bom, pelo menos se acabar, desempregados nós não ficaremos. Qualquer Escola de Samba que se preza nos contrataria, pois daríamos ótimos passistas. Temos que rebolar muito para escapar de cada uma!

Bem, poderia começar com aquela frase: “A história aconteceu com um amigo que…”, mas serei fiel ao leitor. Esta história infelizmente aconteceu com quem vos escreve mesmo. Estava na sala da Criação checando trabalhos, aprovando, desaprovando e reunindo dados para mais um planejamento rotineiro, até me deparar com um Job que estava saindo para a produção. Um filme, cujo roteiro traçava um diálogo entre um ator negro e uma atriz branca. Ele fazia o papel de um comprador de celular e ela, a vendedora. Consultando o histórico do cliente, percebi que ele já havia reclamado de alguns atores, por achar que o cachê estava alto ou mesmo por que segundo ele, alguns eram “bem feinhos”, apesar de bons atores.

De posse dessas informações a equipe da agência responsável pela produção do comercial pediu para que o Atendimento aqui, ligasse para o cliente e checasse com ele a possibilidade de um problema com o ator que representaria o comprador do celular, pois ele era negro, e se o cliente implicasse com isto, não teríamos tempo de colocar o filme no ar, e então, adeus campanha. Claro que ri, era brincadeira, óbvio. Não, não era. Queriam mesmo que fizesse o maldito telefonema. Falei, argumentei, gesticulei, enfim, mandei todo mundo para aquele lugar, mas nada adiantou. Ou ligava, ou esperaria para ver no que daria. Caso desse errado a campanha, a culpa ia cair inteiramente em minhas costas. Certa vez ouvi de uma colega de trabalho que “Atendimento é a arte de engolir sapos” e neste caso, o sapo era gorducho e muito, mas muito nojento. Não é admissível, que ainda hoje, isto se quer passe por nossas cabeças. Em pleno Brasil? Não dá!

Mas lá fui eu. Gastei um bom tempo pensando na história que iria criar para justificar minha ignorância, e claro não parecer preconceituoso, até que por fim, cansei. Claro, nada que eu inventasse seria sério o bastante para justificar este tipo de coisa. Mas, já que era para passar por isso, então que fosse rápido. Mas não foi. Liguei, fui puxando papo aqui, papo ali, explicando de novo o roteiro, enchendo lingüiça, até que percebi uma brecha na conversa e rapidamente falei: “Ah, Sr. Cliente, o ator que nós contratamos é negro, muito bom ator. Senti uma pontada no coração. Em plenos 23 anos, achei que ia ter um enfarte. Foi a frase mais estranha e forçada que já saiu da minha boca em todos os tempos. Senti-me ridículo. O cocô do cavalo do bandido. Como se o que tinha falado não tivesse propósito nenhum. E na verdade, não tinha mesmo. O cliente nem se tocou da minha intenção. Pelo contrário. Já conhecia o trabalho do ator e se desmanchou em elogios, dizendo que o cara era muito bom, acima da média, e que queria até encontrá-lo pessoalmente. Com cara de tapado, desliguei.

Fui atrás da equipe de produção que estava na sala de reunião. Entrei pela porta “puto de raiva” quando deparei com as pessoas rindo desesperadamente, uns se jogando no chão e apontando para mim enquanto outros já estavam sem ar. Sem entender “porra” nenhuma, virei para porta quando vi o nosso polêmico ator abraçado com o cliente, ambos se acabando de tanto rir. Neste momento, juro que quase fui preconceituoso. Com os dois.

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4 Comentários para “Um causo Afro-Brasileiro”

  1. wil wil…. que caso hein?
    bjos pri

  2. Nossa, que situação.. auhhauuhahauhau

  3. credo… que brincadeira horrível…

  4. Fantástico,como um acontecimento verdadeiro pode se tornar um causo tão bem humorado,adorei o causo,e espero poder ler muitos outros por aqui!gostei muito!muito bom…

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